O ano era 2008 e, no auge dos meus dezenove anos, eu estava cursando quarto ou quinto período de Sistemas de Informação e pegava ônibus todos os dias no ponto que ficava há algumas quadras da casa onde morava dividindo aluguel com uma amiga. Saía por volta de umas seis e quinze da tarde e caminhava uns quinze minutos até o ponto, para pegar o ônibus das seis e meia. Chegava um pouco adiantado, por medo de perder o ônibus, e aproveitava o tempo para conversar, fazer amizades... E por que não flertar?!
Bem... Sempre fui meio tapado para esse lance de paquera. Na realidade, com dezenove anos eu ainda era um adolescente franzino, com o rosto cheio de espinhas, super inseguro com a própria aparência e sem autoconfiança suficiente para ultrapassar o limite da troca de olhares. Eis que nesse ponto surge o Adriano, um estudante de Educação Física com seus vinte e poucos anos, alto, moreno, forte. Não costumava vê-lo com frequência lá no ponto, mas houve uma semana em que ele pegou ônibus todos os dias e a partir daí começou nossa troca de olhares. Não trocávamos uma palavra sequer, apenas olhares enquanto esperávamos o ônibus, até que um dia, dentro do ônibus, no caminho para a faculdade, eu estava sentado no fundo, conversando com uma amiga, quando percebi que o Adriano, que estava num banco no meio do ônibus, virou-se de lado em sua poltrona e, com a cabeça virada para trás, ficou me observando descaradamente e sorria discretamente.
Eu nunca havia dado atenção para troca de olhares. Se uma pessoa me olhava de um jeito diferente, eu já imaginava várias possibilidades do tipo "eu devo estar super mal vestido" ou "devo estar com caca no nariz". Na minha cabeça, dificilmente uma pessoa poderia estar me olhando com segundas intenções, mas no caso do Adriano, naquele dia dentro do ônibus, ficou bem claro que definitivamente havia segundas intenções.
Naquela época, a rede social mais utilizada era o Orkut. Quando cheguei em casa após a aula e liguei o computador, vi um convite de amizade do Adriano no Orkut. A partir daí começamos a conversar, trocamos número de telefone e, bem... Adriano foi o meu primeiro namorado.
Essa foi uma das poucas situações na minha vida em que um flerte aconteceu fora da atmosfera da internet. Sempre que quero conhecer alguém, recorro a sites e aplicativos como o Tinder ou Grindr e Scruff, que são voltados especificamente para gays, mas preciso assumir que não tem rendido experiências saudáveis. A atmosfera dos aplicativos de paquera é tão fria e, por vezes, tóxica. São como vitrines em que nos expomos por vontade própria, muitas vezes sem considerar o quão vulneráveis estamos naquele momento para lidar com a superficialização e objetificação da nossa imagem através de fotos que precisam ser estrategicamente escolhidas para o perfil, a fim de chamar atenção de quem as verá. E o que falar da rejeição instantânea? É preciso estar muito bem com a autoestima para lidar com vácuos e blocks, que sempre acabam acontecendo, pois as pessoas se sentem encorajadas a ignorar quando algo não agrada, seja uma foto, uma descrição de perfil ou mesmo uma conversa, pelo fato de não estar cara a cara. Fica muito mais fácil e prático acabar com uma situação desagradável num piscar de olhos, através de um clique, escondido atrás do um computador ou smartphone.
Além disso, quer queira ou não, acho que o lance da paquera cara a cara acaba sendo mais fácil para os heterossexuais do que para homossexuais. Isso explica o fato da maioria dos homossexuais utilizarem aplicativos e de existir uma grande demanda mercadológica por aplicativos de paquera especificamente focados no público gay. Muitas barreiras precisam ser derrubadas na paquera cara a cara, como timidez e o medo de rejeição, mas no caso dos homossexuais, adicione a gafe de chegar abordando um cara que não é gay. Em certas circunstâncias, pode ser até perigoso, pois nunca se sabe quando uma pessoa vai tomar uma atitude homofóbica.
A mídia vende a ideia de usar os aplicativos de paquera como algo mais prático e até descolado, mas a realidade é que não é assim para todos, pois quando você se acostuma a essa forma de paquerar, conhecer pessoas e ter encontros, sente que falta algo. Interação real, o frio na barriga durante uma troca de olhares, o jogo de conquista, a sensação de se sentir desejado por seus atributos reais em vez de por uma série de fotos escolhidas estrategicamente para ilustrar um perfil ou de uma descrição da sua personalidade limitada por cento e poucos caracteres.
Eu nunca havia dado atenção para troca de olhares. Se uma pessoa me olhava de um jeito diferente, eu já imaginava várias possibilidades do tipo "eu devo estar super mal vestido" ou "devo estar com caca no nariz". Na minha cabeça, dificilmente uma pessoa poderia estar me olhando com segundas intenções, mas no caso do Adriano, naquele dia dentro do ônibus, ficou bem claro que definitivamente havia segundas intenções.
Naquela época, a rede social mais utilizada era o Orkut. Quando cheguei em casa após a aula e liguei o computador, vi um convite de amizade do Adriano no Orkut. A partir daí começamos a conversar, trocamos número de telefone e, bem... Adriano foi o meu primeiro namorado.
Além disso, quer queira ou não, acho que o lance da paquera cara a cara acaba sendo mais fácil para os heterossexuais do que para homossexuais. Isso explica o fato da maioria dos homossexuais utilizarem aplicativos e de existir uma grande demanda mercadológica por aplicativos de paquera especificamente focados no público gay. Muitas barreiras precisam ser derrubadas na paquera cara a cara, como timidez e o medo de rejeição, mas no caso dos homossexuais, adicione a gafe de chegar abordando um cara que não é gay. Em certas circunstâncias, pode ser até perigoso, pois nunca se sabe quando uma pessoa vai tomar uma atitude homofóbica.
A mídia vende a ideia de usar os aplicativos de paquera como algo mais prático e até descolado, mas a realidade é que não é assim para todos, pois quando você se acostuma a essa forma de paquerar, conhecer pessoas e ter encontros, sente que falta algo. Interação real, o frio na barriga durante uma troca de olhares, o jogo de conquista, a sensação de se sentir desejado por seus atributos reais em vez de por uma série de fotos escolhidas estrategicamente para ilustrar um perfil ou de uma descrição da sua personalidade limitada por cento e poucos caracteres.


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